Um filme que fala do arquétipo fraterno*

Snow Flower and the Secret Fan (film)

Snow Flower and the Secret Fan (film) (Photo credit: Wikipedia)

* publicado nos Cadernos Junguianos, vol. 8

Flor da Neve e o Leque Secreto  (Snow Flower and the Secret Fan) – China, Estados Unidos, 2011. Direção: Wayne Wang. Roteiro: Ronald Bass, Angela Workman, Michael Ray, Lisa See. Elenco: Bingbing Li, Gianna Jun, Russel Wong, Vivian Wu, Wu Jiang, Zhong Lü, Hu Qing Yu, Hugh Jackman. Duração: 104 minutos.

Não me proponho a discorrer sobre algo que seja apenas um ponto de vista. Vou partir de situações/imagem, deixando a crítica para o leitor. No entanto, não posso omitir a opinião de que visualmente o filme é arrebatador e relatar o que de fato me captura nessa história: o tanto que o enredo pode sensibilizar o olhar junguiano, ao eleger o arquétipo fraterno como tema. A trama contrapõe questões da modernidade a tradições do século XIX, atualizando a vitalidade dos laços fraternos no amparo e na superação de angústias e dificuldades, a partir do momento em que a vida coloca dois pares de amigas em trilhas distintas. Para um olhar mais ácido, esse amor irrestrito que provém da amizade pode parecer piegas. Mas, ao apreciar esse vínculo e suas peculiaridades com mais profundidade, percebemos que a “possibilidade herdada de ideias que conectam a vida do passado, que ainda existe em nós, com a vida do presente” (CW, 9, § 267), denuncia a relevância desses laços, qualquer que seja a época. Mais: que o arquétipo fraterno e sua implícita validação de semelhanças e diferenças numa relação de horizontalidade, simétrica e sem hierarquia, se impõem como algo ainda mais efetivo e valioso para a alma, do que as próprias relações ditadas pelos laços de sangue ou as pressões exercidas pelo mundo moderno.

Relembrando o filme – Estamos na China de hoje, na festa em que Nina, empresária bem-sucedida, acaba de receber uma promoção para Nova York. Comemora com os amigos, e a música alta impede que ouça o celular chamando repetidamente. Do outro lado da linha, inconformada com a impossibilidade de contato, a amiga Sophia decide voltar para casa de bicicleta, quando é atropelada por um táxi. Ao saber da notícia, Nina corre para o hospital e encontra a amiga desacordada. É quando a trama atual se mescla com memórias da história ocorrida em 1829, com uma antepassada de Sophia. Passado e presente criam uma instigante sobreposição de situações e imagens que desvendam ao espectador algumas tradições orientais que caíram em desuso: a tradição do ritual laotong, uma aliança de amizade eterna construída em sigilo; a tradição da busca pelo pé perfeito, à custa de dor e sofrimento, como garantia de um bom casamento, e a tradição da escrita nu shu, sutilmente desenhada nas dobras de um leque, maneira velada pela qual as duas irmãs ancestrais – Flor da Neve e Lirio – encontram para selar o elo de amizade indestrutível, mesmo diante da distância geográfica e das pressões familiares. Uma cena a mais sobre o fraterno. Na linha do tempo, a força desse arquétipo permeia a patriarcal e conservadora China de antigamente, e também se faz presente no império do efêmero, da tecnologia e do consumismo com idêntica energia vital, retratando que a manutenção dos vínculos deliberadamente escolhidos são de fundamental importância para a completude e integridade da alma: Nina desiste da viagem por amor a Sophia, na tentativa de redimir-se pela ausência desencadeada por sua avidez pelo sucesso. Incrível perceber que, em meio à pasteurização cultural que pressiona as sociedades desde sempre, esse arquétipo pôde ser eleito como proposta para aquilo de que nós, como analistas junguianos, mais nos ocupamos: o encontro das singularidades, ideia básica da individuação, não pela negação das diferenças, mas, ao contrário, acolhendo e valorizando o que nos distingue do outro como manifestação da psique em suas inúmeras formas de apaixonamento. Dois momentos da mesma cultura se entrelaçam, deixando para o espectador ainda outra inquietante questão: em que medida os valores recorrentes de uma cultura resistem às constantes pressões da contemporaneidade? Você até pode não apreciar o filme, mas sem dúvida terá material suficiente para refletir sobre a influência que a abertura da China para o capitalismo exerceu sobre seu povo.

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