Big Brother Brasil: um espelho dos tropeços humanos

Zygmunt Bauman (b. 1925), Polish philosopher

Zygmunt Bauman (b. 1925), Polish philosopher (Photo credit: Wikipedia)

Acessar um blog de discussão sobre o BBB – seja para criticar, torcer pelo brother preferido ou simplesmente observar as repercussões que os mais diversos comportamentos despertam nos espectadores – pode revelar alguns ingredientes responsáveis pelo contínuo sucesso desse reality show, cuja décima quarta edição já se anuncia: voyeurismo, surpresa, submissão, exibicionismo, vigília, punição. Criteriosamente dosada, essa mistura aguça os instintos mais primários do nosso psiquismo, desde a luta pela sobrevivência, os sentimentos narcísicos e as mazelas da sexualidade, até a necessidade mais inconsciente de poder e onipotência no controle dos destinos do “outro”.  Você vai encontrar, por exemplo, quem diga que o “BBB é uma realidade surreal; real porque vemos o que somos, e surreal porque não acreditamos no que vemos”. Ou então, afirmações do tipo “quando se fica confinado tem-se mais é que beijar na boca mesmo. Não tenho nada contra o pega-pega, só defendo o direito de assistir a cena completa”.

Observar, espreitar, espiar – Quem ainda não se deu conta, essa epidemia de bisbilhotice que contamina milhões de espectadores foi inspirada no romance 1984, de George Orwell, que relata uma suposta sociedade onde todos os indivíduos deveriam subordinar-se à vontade de um Estado totalitário, capaz de vigiar os passos de todos os habitantes através de câmeras. Não é difícil perceber que a ficção de Orwell tornou-se realidade e o Grande Irmão, do livro, passou a permear variados setores da existência por meio da manipulação. Quando os avanços tecnológicos – câmeras de segurança, interfones, telefones celulares, crachás eletrônicos, cartões de crédito – passam a invadir nossa privacidade, monitorando as ações cotidianas, somos literalmente vigiados e nos tornamos vulneráveis a sanções. Tudo muito parecido com o que acontece quando um número crescente de pessoas “patrulha” os participantes de uma casa (com os confortos e diversões que povoam nosso imaginário), policiando, apoiando ou punindo os comportamentos com os quais não concordam. É a curiosidade inerente à natureza humana que, em vez de canalizada para o aperfeiçoamento da vontade de aprender e adquirir conhecimento, volta-se à indiscrição e ao desejo de se inteirar dos segredos e particularidades da vida alheia. Quer pelas características dos atores permanentemente vigiados pelos olhos mecânicos escondidos ou os valores desses príncipes e princesas eletrônicos que diariamente freqüentam as casas de milhões de espectadores – na de muitos, em tempo integral – constata-se a presença da mídia determinando a exposição indiscriminada por exibicionismo e desejo de fama, sujeição a situações de humilhação e ridículo e submissão ao dinheiro. O que em tese seria uma representação da realidade, na prática revela-se um jogo de interesses mediado pela propaganda, afinal a última disputa foi por um milhão e meio de reais.

A vida imita a arte?- Supostamente selecionados para fornecer um recorte diversificado dos personagens da vida real, mas criteriosamente escolhidos com olhos nos “picos de audiência” (seja pelo corpo bonito ou personalidade polêmica), o comportamento dos brothers é regido pela máxima intensidade com o mínimo de compromisso. Como resultado, o que se observa é a inconseqüência nos relacionamentos, a superexposição de sentimentos, o culto à imagem, à superficialidade e ao erotismo. Reflexos do que o sociólogo polonês Zigmunt Bauman propõe no conceito de “modernidade líquida”. O imperativo é ver, aparecer e ser visto, mesmo que isso signifique a perda das singularidades. Através do mecanismo de projeção, os espectadores se identificam e reconhecem na imagem do “outro” sua própria possibilidade de “vir a ser”. Se ele pode, eu também posso. Se ele aparece, eu também posso sonhar. Se é infiel, está em minhas mãos me indignar e punir… ou agir da mesma maneira porque está na moda. Como um retrato fiel das distorções sócio-culturais, das injustiças da lógica econômica que produz sonhos de visibilidade, êxito empresarial, ascensão social e fama, a dinâmica do programa, por outro lado, também testemunha a necessidade de inserção e reconhecimento de seus protagonistas, sentimentos comuns e genuínos a todo ser humano. É nessas características que milhões de brasileiros se reconhecem e o vale-tudo da telinha encontra eco no vale-tudo da vida real.

Placa George Orwell in Barcelona, Spain is wat...

Placa George Orwell in Barcelona, Spain is watched by video cameras (Photo credit: Wikipedia)a telinha encontra eco no vale-tudo da vida real.

Heróis, vilões, fadas e bruxas – Percebe-se a reverberação desses novos valores nas escolhas interativas do público (mais um produto da revolução tecnológica nas comunicações) que adquire o poder de comandar, sacrificar ou privilegiar, identificado que está com os heróis, vilões, sereias, fadas e bruxas confinados no mesmo espaço. Personagens arquetípicos, eles configuram modos de ação nos quais o espectador pode ver-se espelhado e, a partir disso, influenciar os rumos da trama que, aparentemente, se estabelece sem o script das novelas. Segundo a psicologia junguiana, arquétipos são padrões ou motivos universais que se originam no inconsciente coletivo e ao se apresentar à consciência, evocam reações emocionais que determinam atitudes particulares e individuais de se vivenciar e elaborar as experiências. Mais frequentemente do que se pode imaginar, as vivências de um arquétipo são experimentadas em projeção, o que justifica a atração por mocinhas turbinadas e garotões sarados: heróis e sereias que seduzem e repelem, com o único objetivo de vencer. Diante de um pequeno revés deixam transparecer seu lado de vilões e bruxas; ou ficam na defensiva encenando o papel de mocinhas desprotegidas e garotões desfavorecidos, que escondem suas reais identidades como estratégia de jogo – uma miscelânea de emoções e atitudes que alicia os espectadores a fazer parte deste “show da vida” que explora as mais variadas experiências e tropeços aos quais todo ser humano está vulnerável, independente da raça, cultura ou padrão social.

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