Continente de Emoções!!!

Mandala
Diante de um estudo de minha autoria, desenvolvido e publicado no ano passado (2012), venho por meio deste, discorrer sobre as minhas reflexões dentro do mundo da Demência. Este é um tema que muito me interessa pelo seu caráter misterioso e pela dificuldade que as pessoas acometidas e seus familiares enfrentam no cotidiano com a patologia. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2012), há 35 milhões de pessoas que estão sofrendo de demência em todo o mundo. O Brasil é o nono país com o maior número de casos.
As Demências se tratam de doenças que até hoje não foi possível desenvolver um método terapêutico que obtivesse a cura. É uma síndrome caracterizada por comprometimento das habilidades intelectuais, principalmente em pessoas idosas. Os pacientes devem apresentar deterioração da memória e de outras funções corticais superiores comprometendo a capacidade funcional diária do indivíduo. O quadro clínico de pacientes portadores de demência modifica-se com o tempo, e podem ser classificadas como leve, moderada e grave. No início, os sintomas são sutis e vão piorando com o tempo podendo comprometer alterações na linguagem (afasia), na percepção (agnosia), atividades motoras (apraxia), organização e planejamento (funções executivas), além de habilidades visuoespaciais e alterações do comportamento (mais presente na demência do tipo Alzheimer).
Indivíduos acometidos pela patologia perdem o que chamamos de capacidade de estrutura egóica, ou seja, uma memória consciente do Si-mesmo. Por outro lado, parece que um outro tipo de memória pode permanecer preservada em pacientes demenciados, como a que a autora Irene Gaeta Arcuri chama de memória corporal. Essa se trata de experiências vividas desde os nossos primeiros anos de vida, caracterizada por uma memória afetiva, primitiva e “sentimentos inominados”.
A experiência foi mais que um trabalho, foi um verdadeiro desafio! O desafio era acessar as emoções despertadas em três mulheres com idades que variam de 81 a 88 anos, sendo as três portadoras de demência em estágio avançado!
A mandala foi escolhida como instrumento no estudo com as pacientes mulheres portadoras de demência avançada. O autor Carl Gustav Jung considera que a mesma exerce uma função organizadora do Ser total.
Mandala é uma palavra em sânscrito, que tem como significado círculo. Também pode signifcar circulo mágico, ou concentração de energia. Universalmente é o símbolo da totalidade.
Em várias culturas, a mandala foi usada como expressão científica, artística e religiosa. Podemos ver mandalas no simbolo chinês Yin e Yang, nos yantras indianos, nas mandalas tibetanas, na arte indígena e outros.
Refere-se a uma figura geométrica em que o círculo está circunscrito em um quadrado ou um quadrado em um círculo. Pode estar apenas um quadrado ou apenas um círculo na figura, divididas por quatro ou mútiplos de quatro. Dependendo da perspectiva do indivíduo, parece irradiada pelo centro, ou se move para dentro dele.
Jung recorre à ultilização da mandala como uma forma simbólica da representação da psique, ultilizadas para consolidar o mundo interior e para favorecer a meditação em profundidade. O autor percebeu que, como nos sonhos, as mandalas eram ricas em imagens arquetípicas, sendo que o arquétipo é conceituado como o centro nuclear de um complexo sob a forma de uma imagem universal. Portanto, observou uma relação nos conteúdos simbólicos das mandalas e aspectos psicológicos de pessoas que passavam por crises interiores.
A contemplação de uma mandala pode inspirar a serenidade e ajudar a reencontrar um sentido e ordem na vida. Mencionam também que as formas redondas das mandalas simbolizam a integridade natural. Jung verifica que a mandala pode exercer a função de preservar a ordem psíquica, ou então estimular uma função criadora.
Os atendimentos com essas mulheres aconteceram de forma individual, e dividido em vários encontros com cada uma delas. Lá elas eram livres para escolher uma cor de giz de cera e desenhar o que quisessem dentro de um círculo já impresso. Em nenhum momento aparece alguma figura passível de reconhecimento. O que aparece alí, são rabiscos que demonstram o funcionamento egóico de cada uma destas mulheres. Por exemplo, uma delas sempre se mantinha no centro do círculo enquanto a outra buscava continuar traçando onde já existia o círculo pré desenhado. O que mais me impressionou nestes encontros foram a forma com que estas mulheres, que pouco são compreendidas no seu dia a dia, puderam se expressar através de palavras ou pequenas frases enquanto realizavam a atividade. Percebi que elas, mesmo não podendo se expressar via figuras simbólicas de sua psique, devido a uma doença progressiva degenerativa que afeta tanto seus movimentos mais nobres, quanto sua capacidade cognitiva e simbólica puderam expressar seus sentimentos momentâneos via linguagem verbal e corporal. Essa forma de expressão também pode ser considerada uma representação da totalidade da psique do indivíduo portador de demência em grau avançado.
A partir do que se entende por demência, percebemos que indivíduos acometidos por tal patologia sofrem de uma extensa desorganização do Si-mesmo, entendendo o conceito como a totalidade do Ser. Podemos afirmar que a pessoa portadora de demência apresenta sintomas de perda da identidade, desapropriando-se de seus hábitos, gostos, linguagens. Em outras palavras, deixando de Ser-no-mundo.
Embora o indivíduo demenciado perca a capacidade de reconhecimento de sua própria imagem, são capazes de expressar sensações momentâneas a partir de uma memória corporal e atemporal.
Como vimos anteriormente, as mandalas individuais podem ser consideradas como um método organizador do Ser, proporcionando um espaço de alinhamento dos opostos psíquicos, responsáveis por desorganização e sofrimento. Possibilitam também a expressão de suas vivências interiores, seja elas conscientes ou inconscientes. Concluindo, as mandalas podem representar um potencial para a totalidade, e podem ser empregadas como instrumento de concentração e como um meio de unir fragmentos de sensações com o centro da personalidade, compensando a desordem e a perturbação do estado psíquico de indivíduos portadores de demência.

Por Daniela Laskani
Texto publicado na íntegra em Revista Prata da Casa n5

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