O Mito de Deméter e o Envelhecimento

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Leighton depicts Hermes helping Persephone to return to her mother Demeter after Zeus forced Hades to return Persepone. (Photo credit: Wikipedia)

A perda é um dos principais conteúdos angustiantes do envelhecer, e pode aparecer de diversas formas durante a vida cotidiana como perda de entes queridos, perda de algum papel social e familiar, perda de lembranças e movimentos.
Podemos encontrar os mesmos conteúdos no mito de Deméter. Uma deusa do Olimpo, que cuidava da fertilidade da terra, do plantio e da colheita. Filha de Réia e Cronos foi engolida pelo próprio pai junto aos outros irmãos para que nenhum deles pudesse um dia substitui-lo como Deus supremo. Zeus, o caçula dos filhos de Cronos, ao iludir o pai fez com que ele vomitasse todos os filhos que engolira, e Deméter foi devolvida ao mundo.
Deméter foi estuprada por Zeus, pois o mesmo cobiçava a beleza da Deusa que recusa suas propostas amorosas. O resultado deste coito foi a filha e Deusa Perséfone, muito amada pela mãe.
Perséfone foi raptada pelo tio Hades, Deus do mundo inferior, pois este se encontrava apaixonado pelos encantos da jovem Deusa. Deméter vagou durante nove dias e nove noites à procura de sua filha sem encontra-la, até que o Deus do sol, Hélio, contou que Perséfone havia sido levada por Hades.
Ao chegar ao mundo inferior de Hades, Deméter não pode levar a sua filha de volta para o Olimpo. Perséfone tinha se alimentado de uma romã no reino do Hades e de lá não poderia mais sair.
Sentindo falta de Perséfone, Deméter não retornou ao Olimpo provocando a escassez de alimentos. Zeus já sabendo o que ocorria procurou por Hermes, o Deus mensageiro, para que ele convencesse Hades a devolver Perséfone.
Hades, temido do poder de Zeus, permite que Perséfone retorne ao Olimpo junto à mãe, desde que passasse um terço do ano junto a ele. Este terço do ano corresponde ao inverno, quando Deméter não está disposta a ajudar na fertilidade da terra, permanecendo longe de sua filha.
Ao analisar a imagem de Deméter percebemos que ela é tripla, uma vez que representa uma donzela, mãe e uma velha sábia. Também chamada de Deusa Hécate, representa a Deusa da Lua, aquela que traz a luz, mãe da terra e do feminino. No mito ela se encontra entre dois mundos, o sagrado mundo que dá lugar ao útero da terra e o reino governado por Hades, também representado pelo senhor da morte.
O ato de procurar o que está perdido como Deméter, é bastante semelhante ao que acontece com as pessoas que estão envelhecendo. Significa ir em busca de novas possibilidades e ir de encontro com o feminino, para o que o autor Jung chama de individuação, que pode ser entendido como um ato de amadurecimento psíquico.
A história de Deméter nos fala e ensina sobre a dor das nossas perdas e a esperança da transformação. Para alguns autores o envelhecimento é necessário, e deve ser olhado como um estado de ser, e o velho como um fenômeno arquetípico com seus próprios mitos e significados. É um desafio encontrar o valor do envelhecimento.
“… quando atravessamos nossos anos de declínio, também possamos alcançar um lugar onde vivenciamos a vitória de nossas derrotas. Aceitar a nós mesmos e a nossa vida é uma lição que todos gostaríamos de aprender. Tanto essa lição quanto o desenvolvimento de um ego que suporte a verdade e não se imiscua no destino parecem ser metas que todos procuramos alcançar enquanto transpomos a passagem de transição do envelhecimento.” (JUNG).

Daniela Laskani

VI Seminário de Psicogerontologia na UNIP

O seminário conta com a presença de Isabella Quadros (Psicóloga, Mestre em Gerontologia Social), Deolinda Fabetti (Arteterapeuta, Mestre em Gerontologia), e Arlete Salimene (Doutora em Serviço Social). As palestrantes abordarão temas como Rede de cuidados e suas configurações, O corpo e sua expressão simbólica na velhice, e Sexualidade e envelhecimento.

Coordenação de Dra. Irene Gaeta Arcuri

Investimento: R$190,00

Ocorrerá no dia 15 de Junho de 2013 (sábado) na UNIP da Vergueiro em São Paulo.

Inscrições e informações no site: http://www.livrariaresposta.com.br

Programa Universidade Aberta à Terceira Idade

Fotos BlogHá 20 anos foi instaurado um projeto que permite o ingresso de maiores de 60 anos no universo universitário. O projeto é coordenado pela Professora Titular do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
O objetivo do programa Universidade Aberta à Terceira Idade é possibilitar ao idoso aprofundar “conhecimentos em alguma área de seu interesse e ao mesmo tempo trocar informações e experiências com os jovens”.
As atividades variam entre disciplinas regulares, atividades complementares didático-culturais, e atividades complementares físico-esportivas, e podem ser encontradas nas cidades São Paulo, Bauru, Lorena, Piracicaba, Pirassununga, Ribeirão Preto e São Carlos.
Palestras como “Afecções ginecológicas mais frequentes na terceira idade” (dia 08/05/2013), “Comportamento hormonal pós-menopausa: reposição hormonal – limites e contraindicações” (14/05/2013) e ” Nutrição na terceira idade: nutrientes” (15/05/2013) serão os próximos temas a serem abordados na Faculdade de Medicina, campos Cerqueira César em São Paulo.

A programação completa está acessível neste site:
http://www.prceu.usp.br/programas/3idade/index.php
Ou para maiores informações ligue (11) 3091-9183 ou mande um e-mail para: usp3idad@usp.br

Continente de Emoções!!!

Mandala
Diante de um estudo de minha autoria, desenvolvido e publicado no ano passado (2012), venho por meio deste, discorrer sobre as minhas reflexões dentro do mundo da Demência. Este é um tema que muito me interessa pelo seu caráter misterioso e pela dificuldade que as pessoas acometidas e seus familiares enfrentam no cotidiano com a patologia. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2012), há 35 milhões de pessoas que estão sofrendo de demência em todo o mundo. O Brasil é o nono país com o maior número de casos.
As Demências se tratam de doenças que até hoje não foi possível desenvolver um método terapêutico que obtivesse a cura. É uma síndrome caracterizada por comprometimento das habilidades intelectuais, principalmente em pessoas idosas. Os pacientes devem apresentar deterioração da memória e de outras funções corticais superiores comprometendo a capacidade funcional diária do indivíduo. O quadro clínico de pacientes portadores de demência modifica-se com o tempo, e podem ser classificadas como leve, moderada e grave. No início, os sintomas são sutis e vão piorando com o tempo podendo comprometer alterações na linguagem (afasia), na percepção (agnosia), atividades motoras (apraxia), organização e planejamento (funções executivas), além de habilidades visuoespaciais e alterações do comportamento (mais presente na demência do tipo Alzheimer).
Indivíduos acometidos pela patologia perdem o que chamamos de capacidade de estrutura egóica, ou seja, uma memória consciente do Si-mesmo. Por outro lado, parece que um outro tipo de memória pode permanecer preservada em pacientes demenciados, como a que a autora Irene Gaeta Arcuri chama de memória corporal. Essa se trata de experiências vividas desde os nossos primeiros anos de vida, caracterizada por uma memória afetiva, primitiva e “sentimentos inominados”.
A experiência foi mais que um trabalho, foi um verdadeiro desafio! O desafio era acessar as emoções despertadas em três mulheres com idades que variam de 81 a 88 anos, sendo as três portadoras de demência em estágio avançado!
A mandala foi escolhida como instrumento no estudo com as pacientes mulheres portadoras de demência avançada. O autor Carl Gustav Jung considera que a mesma exerce uma função organizadora do Ser total.
Mandala é uma palavra em sânscrito, que tem como significado círculo. Também pode signifcar circulo mágico, ou concentração de energia. Universalmente é o símbolo da totalidade.
Em várias culturas, a mandala foi usada como expressão científica, artística e religiosa. Podemos ver mandalas no simbolo chinês Yin e Yang, nos yantras indianos, nas mandalas tibetanas, na arte indígena e outros.
Refere-se a uma figura geométrica em que o círculo está circunscrito em um quadrado ou um quadrado em um círculo. Pode estar apenas um quadrado ou apenas um círculo na figura, divididas por quatro ou mútiplos de quatro. Dependendo da perspectiva do indivíduo, parece irradiada pelo centro, ou se move para dentro dele.
Jung recorre à ultilização da mandala como uma forma simbólica da representação da psique, ultilizadas para consolidar o mundo interior e para favorecer a meditação em profundidade. O autor percebeu que, como nos sonhos, as mandalas eram ricas em imagens arquetípicas, sendo que o arquétipo é conceituado como o centro nuclear de um complexo sob a forma de uma imagem universal. Portanto, observou uma relação nos conteúdos simbólicos das mandalas e aspectos psicológicos de pessoas que passavam por crises interiores.
A contemplação de uma mandala pode inspirar a serenidade e ajudar a reencontrar um sentido e ordem na vida. Mencionam também que as formas redondas das mandalas simbolizam a integridade natural. Jung verifica que a mandala pode exercer a função de preservar a ordem psíquica, ou então estimular uma função criadora.
Os atendimentos com essas mulheres aconteceram de forma individual, e dividido em vários encontros com cada uma delas. Lá elas eram livres para escolher uma cor de giz de cera e desenhar o que quisessem dentro de um círculo já impresso. Em nenhum momento aparece alguma figura passível de reconhecimento. O que aparece alí, são rabiscos que demonstram o funcionamento egóico de cada uma destas mulheres. Por exemplo, uma delas sempre se mantinha no centro do círculo enquanto a outra buscava continuar traçando onde já existia o círculo pré desenhado. O que mais me impressionou nestes encontros foram a forma com que estas mulheres, que pouco são compreendidas no seu dia a dia, puderam se expressar através de palavras ou pequenas frases enquanto realizavam a atividade. Percebi que elas, mesmo não podendo se expressar via figuras simbólicas de sua psique, devido a uma doença progressiva degenerativa que afeta tanto seus movimentos mais nobres, quanto sua capacidade cognitiva e simbólica puderam expressar seus sentimentos momentâneos via linguagem verbal e corporal. Essa forma de expressão também pode ser considerada uma representação da totalidade da psique do indivíduo portador de demência em grau avançado.
A partir do que se entende por demência, percebemos que indivíduos acometidos por tal patologia sofrem de uma extensa desorganização do Si-mesmo, entendendo o conceito como a totalidade do Ser. Podemos afirmar que a pessoa portadora de demência apresenta sintomas de perda da identidade, desapropriando-se de seus hábitos, gostos, linguagens. Em outras palavras, deixando de Ser-no-mundo.
Embora o indivíduo demenciado perca a capacidade de reconhecimento de sua própria imagem, são capazes de expressar sensações momentâneas a partir de uma memória corporal e atemporal.
Como vimos anteriormente, as mandalas individuais podem ser consideradas como um método organizador do Ser, proporcionando um espaço de alinhamento dos opostos psíquicos, responsáveis por desorganização e sofrimento. Possibilitam também a expressão de suas vivências interiores, seja elas conscientes ou inconscientes. Concluindo, as mandalas podem representar um potencial para a totalidade, e podem ser empregadas como instrumento de concentração e como um meio de unir fragmentos de sensações com o centro da personalidade, compensando a desordem e a perturbação do estado psíquico de indivíduos portadores de demência.

Por Daniela Laskani
Texto publicado na íntegra em Revista Prata da Casa n5