Jung na residência em Psiquiatria da Santa Casa

Uma informação sensacional para a comunidade junguiana:  os novos psiquiatras residentes e estagiários do CAISM – Centro de Atenção Integrada à Saude Mental, da Santa Casa de São Paulo iniciaram a série de Seminários Junguianos na última quinta-feira, dia 2 de maio. A primeira aula ficou a cargo de Marcelo Niel. Quem viu, adorou!

Parabéns a todos por essa iniciativa, especialmente à Edneia Zanuto. Enfim, a perspectiva junguiana ganha novas fronteiras!

Big Brother Brasil: um espelho dos tropeços humanos

Zygmunt Bauman (b. 1925), Polish philosopher

Zygmunt Bauman (b. 1925), Polish philosopher (Photo credit: Wikipedia)

Acessar um blog de discussão sobre o BBB – seja para criticar, torcer pelo brother preferido ou simplesmente observar as repercussões que os mais diversos comportamentos despertam nos espectadores – pode revelar alguns ingredientes responsáveis pelo contínuo sucesso desse reality show, cuja décima quarta edição já se anuncia: voyeurismo, surpresa, submissão, exibicionismo, vigília, punição. Criteriosamente dosada, essa mistura aguça os instintos mais primários do nosso psiquismo, desde a luta pela sobrevivência, os sentimentos narcísicos e as mazelas da sexualidade, até a necessidade mais inconsciente de poder e onipotência no controle dos destinos do “outro”.  Você vai encontrar, por exemplo, quem diga que o “BBB é uma realidade surreal; real porque vemos o que somos, e surreal porque não acreditamos no que vemos”. Ou então, afirmações do tipo “quando se fica confinado tem-se mais é que beijar na boca mesmo. Não tenho nada contra o pega-pega, só defendo o direito de assistir a cena completa”.

Observar, espreitar, espiar – Quem ainda não se deu conta, essa epidemia de bisbilhotice que contamina milhões de espectadores foi inspirada no romance 1984, de George Orwell, que relata uma suposta sociedade onde todos os indivíduos deveriam subordinar-se à vontade de um Estado totalitário, capaz de vigiar os passos de todos os habitantes através de câmeras. Não é difícil perceber que a ficção de Orwell tornou-se realidade e o Grande Irmão, do livro, passou a permear variados setores da existência por meio da manipulação. Quando os avanços tecnológicos – câmeras de segurança, interfones, telefones celulares, crachás eletrônicos, cartões de crédito – passam a invadir nossa privacidade, monitorando as ações cotidianas, somos literalmente vigiados e nos tornamos vulneráveis a sanções. Tudo muito parecido com o que acontece quando um número crescente de pessoas “patrulha” os participantes de uma casa (com os confortos e diversões que povoam nosso imaginário), policiando, apoiando ou punindo os comportamentos com os quais não concordam. É a curiosidade inerente à natureza humana que, em vez de canalizada para o aperfeiçoamento da vontade de aprender e adquirir conhecimento, volta-se à indiscrição e ao desejo de se inteirar dos segredos e particularidades da vida alheia. Quer pelas características dos atores permanentemente vigiados pelos olhos mecânicos escondidos ou os valores desses príncipes e princesas eletrônicos que diariamente freqüentam as casas de milhões de espectadores – na de muitos, em tempo integral – constata-se a presença da mídia determinando a exposição indiscriminada por exibicionismo e desejo de fama, sujeição a situações de humilhação e ridículo e submissão ao dinheiro. O que em tese seria uma representação da realidade, na prática revela-se um jogo de interesses mediado pela propaganda, afinal a última disputa foi por um milhão e meio de reais.

A vida imita a arte?- Supostamente selecionados para fornecer um recorte diversificado dos personagens da vida real, mas criteriosamente escolhidos com olhos nos “picos de audiência” (seja pelo corpo bonito ou personalidade polêmica), o comportamento dos brothers é regido pela máxima intensidade com o mínimo de compromisso. Como resultado, o que se observa é a inconseqüência nos relacionamentos, a superexposição de sentimentos, o culto à imagem, à superficialidade e ao erotismo. Reflexos do que o sociólogo polonês Zigmunt Bauman propõe no conceito de “modernidade líquida”. O imperativo é ver, aparecer e ser visto, mesmo que isso signifique a perda das singularidades. Através do mecanismo de projeção, os espectadores se identificam e reconhecem na imagem do “outro” sua própria possibilidade de “vir a ser”. Se ele pode, eu também posso. Se ele aparece, eu também posso sonhar. Se é infiel, está em minhas mãos me indignar e punir… ou agir da mesma maneira porque está na moda. Como um retrato fiel das distorções sócio-culturais, das injustiças da lógica econômica que produz sonhos de visibilidade, êxito empresarial, ascensão social e fama, a dinâmica do programa, por outro lado, também testemunha a necessidade de inserção e reconhecimento de seus protagonistas, sentimentos comuns e genuínos a todo ser humano. É nessas características que milhões de brasileiros se reconhecem e o vale-tudo da telinha encontra eco no vale-tudo da vida real.

Placa George Orwell in Barcelona, Spain is wat...

Placa George Orwell in Barcelona, Spain is watched by video cameras (Photo credit: Wikipedia)a telinha encontra eco no vale-tudo da vida real.

Heróis, vilões, fadas e bruxas – Percebe-se a reverberação desses novos valores nas escolhas interativas do público (mais um produto da revolução tecnológica nas comunicações) que adquire o poder de comandar, sacrificar ou privilegiar, identificado que está com os heróis, vilões, sereias, fadas e bruxas confinados no mesmo espaço. Personagens arquetípicos, eles configuram modos de ação nos quais o espectador pode ver-se espelhado e, a partir disso, influenciar os rumos da trama que, aparentemente, se estabelece sem o script das novelas. Segundo a psicologia junguiana, arquétipos são padrões ou motivos universais que se originam no inconsciente coletivo e ao se apresentar à consciência, evocam reações emocionais que determinam atitudes particulares e individuais de se vivenciar e elaborar as experiências. Mais frequentemente do que se pode imaginar, as vivências de um arquétipo são experimentadas em projeção, o que justifica a atração por mocinhas turbinadas e garotões sarados: heróis e sereias que seduzem e repelem, com o único objetivo de vencer. Diante de um pequeno revés deixam transparecer seu lado de vilões e bruxas; ou ficam na defensiva encenando o papel de mocinhas desprotegidas e garotões desfavorecidos, que escondem suas reais identidades como estratégia de jogo – uma miscelânea de emoções e atitudes que alicia os espectadores a fazer parte deste “show da vida” que explora as mais variadas experiências e tropeços aos quais todo ser humano está vulnerável, independente da raça, cultura ou padrão social.

Um filme que fala do arquétipo fraterno*

Snow Flower and the Secret Fan (film)

Snow Flower and the Secret Fan (film) (Photo credit: Wikipedia)

* publicado nos Cadernos Junguianos, vol. 8

Flor da Neve e o Leque Secreto  (Snow Flower and the Secret Fan) – China, Estados Unidos, 2011. Direção: Wayne Wang. Roteiro: Ronald Bass, Angela Workman, Michael Ray, Lisa See. Elenco: Bingbing Li, Gianna Jun, Russel Wong, Vivian Wu, Wu Jiang, Zhong Lü, Hu Qing Yu, Hugh Jackman. Duração: 104 minutos.

Não me proponho a discorrer sobre algo que seja apenas um ponto de vista. Vou partir de situações/imagem, deixando a crítica para o leitor. No entanto, não posso omitir a opinião de que visualmente o filme é arrebatador e relatar o que de fato me captura nessa história: o tanto que o enredo pode sensibilizar o olhar junguiano, ao eleger o arquétipo fraterno como tema. A trama contrapõe questões da modernidade a tradições do século XIX, atualizando a vitalidade dos laços fraternos no amparo e na superação de angústias e dificuldades, a partir do momento em que a vida coloca dois pares de amigas em trilhas distintas. Para um olhar mais ácido, esse amor irrestrito que provém da amizade pode parecer piegas. Mas, ao apreciar esse vínculo e suas peculiaridades com mais profundidade, percebemos que a “possibilidade herdada de ideias que conectam a vida do passado, que ainda existe em nós, com a vida do presente” (CW, 9, § 267), denuncia a relevância desses laços, qualquer que seja a época. Mais: que o arquétipo fraterno e sua implícita validação de semelhanças e diferenças numa relação de horizontalidade, simétrica e sem hierarquia, se impõem como algo ainda mais efetivo e valioso para a alma, do que as próprias relações ditadas pelos laços de sangue ou as pressões exercidas pelo mundo moderno.

Relembrando o filme – Estamos na China de hoje, na festa em que Nina, empresária bem-sucedida, acaba de receber uma promoção para Nova York. Comemora com os amigos, e a música alta impede que ouça o celular chamando repetidamente. Do outro lado da linha, inconformada com a impossibilidade de contato, a amiga Sophia decide voltar para casa de bicicleta, quando é atropelada por um táxi. Ao saber da notícia, Nina corre para o hospital e encontra a amiga desacordada. É quando a trama atual se mescla com memórias da história ocorrida em 1829, com uma antepassada de Sophia. Passado e presente criam uma instigante sobreposição de situações e imagens que desvendam ao espectador algumas tradições orientais que caíram em desuso: a tradição do ritual laotong, uma aliança de amizade eterna construída em sigilo; a tradição da busca pelo pé perfeito, à custa de dor e sofrimento, como garantia de um bom casamento, e a tradição da escrita nu shu, sutilmente desenhada nas dobras de um leque, maneira velada pela qual as duas irmãs ancestrais – Flor da Neve e Lirio – encontram para selar o elo de amizade indestrutível, mesmo diante da distância geográfica e das pressões familiares. Uma cena a mais sobre o fraterno. Na linha do tempo, a força desse arquétipo permeia a patriarcal e conservadora China de antigamente, e também se faz presente no império do efêmero, da tecnologia e do consumismo com idêntica energia vital, retratando que a manutenção dos vínculos deliberadamente escolhidos são de fundamental importância para a completude e integridade da alma: Nina desiste da viagem por amor a Sophia, na tentativa de redimir-se pela ausência desencadeada por sua avidez pelo sucesso. Incrível perceber que, em meio à pasteurização cultural que pressiona as sociedades desde sempre, esse arquétipo pôde ser eleito como proposta para aquilo de que nós, como analistas junguianos, mais nos ocupamos: o encontro das singularidades, ideia básica da individuação, não pela negação das diferenças, mas, ao contrário, acolhendo e valorizando o que nos distingue do outro como manifestação da psique em suas inúmeras formas de apaixonamento. Dois momentos da mesma cultura se entrelaçam, deixando para o espectador ainda outra inquietante questão: em que medida os valores recorrentes de uma cultura resistem às constantes pressões da contemporaneidade? Você até pode não apreciar o filme, mas sem dúvida terá material suficiente para refletir sobre a influência que a abertura da China para o capitalismo exerceu sobre seu povo.

Agora o papo começa a ficar sério !

A Ética dos Encontros Descartáveis
 
Falar de amor e sexo no século XXI implica refletir sobre a “sociedade do espetáculo” descrita pelo polêmico pensador francês Guy Debord. O autor analisa uma forma de estar no mundo em que a vida real é, inexoravelmente, pobre e fragmentada – e as pessoas são obrigadas a assistir e a consumir passivamente as imagens de tudo que lhes falta em sua existência subjetiva.
 Essa perspectiva me remete ao termo “ficar” – rótulo informal para os encontros efêmeros e descartáveis, nos quais ver, ser visto e aparecer reduzem os casais a machos e fêmeas no cio. Os pares são transitórios, os arranjos duram apenas algumas horas, talvez dias. Ou minutos. É o tempo do desejo saciado. A disposição para a entrega, para o “outro” e para o amor vive (ou sobrevive) sob o impacto do exagero, da aceleração e da competitividade. A sexualidade é experimentada como mais um produto de consumo, fica disponível num mercado de troca que não vai além da dimensão ilusória.
Reflexos da Globalização
“Ficar” denuncia uma nova ordem das coisas e o inevitável entrelaçamento entre indivíduo e mundo. Uma espécie de voyeurismo, que ao mesmo tempo exibe e excita, restringe o potencial criativo dos verdadeiros encontros à mera satisfação carnal. “Ficar” torna-se o absolutismo literal, comprometendo a fusão com os outros sentidos. Impede a elaboração das fantasias indispensáveis à compreensão do que está por trás da banal conexão entre os pares e do que poderia ser apreciado, sentido e vivido como metáfora para novos e mais criativos estilos de relacionamento.
Não fosse pela aproximação anestesiada entre os pares, devido ao consumo abusivo de álcool e drogas (ou a combinação de ambos), também eu não teria ressalvas a essa fonte de aprendizado para a vida adulta. Mas não são muitos os efeitos positivos do “ficar”. Ao contrário: gravidez indesejada, disseminação de DSTs e ausência de auto-reconhecimento por meio do “outro” são conseqüências freqüentes – e às vezes desastrosas. Sem medo da rejeição, os jovens perdem o sabor da frustração, já que bocas, curvas, seios, músculos e genitais estão sempre disponíveis. Rejeitar, do latim rejectare, significa fazer eco, repercutir, lançar para fora, rebater. E a falta dessa experiência inibe a capacidade de perceber que o “outro” também tem liberdade para escolher.
No cenário distorcido e nas imagens erotizadas da mídia vendem-se falsas necessidades e pseudodesejos inspirados por corpos exuberantes e figuras estereotipadas de homens e mulheres esvaziados de sua interioridade, privados de individualidade e raízes. Nessa exibição indiscriminada – que comercializa amor da mesma forma que produtos para higiene íntima – a alteridade não conta: só importa o que é manifesto e visto. O afeto é desvalorizado porque o que vale mesmo é o desempenho. Essa constatação nos desafia em outdoors, na televisão, nas revistas e pode ser testemunhada nos consultórios.
Que homens e mulheres se constroem a partir desse espetáculo? Tentar uma compreensão na mais pura tradição junguiana me leva a recorrer aos arquétipos do inconsciente coletivo (prefigurações de toda experiência humana que se manifesta em imagens), contrapondo-os às configurações modeladas pela cultura de massa (os estereótipos, ou seja, características que se referem a um determinado padrão generalizado e pouco original). Se um está diretamente relacionado à multiplicidade de cada ser e, portanto, acessível a partir do cultivo de alma, o outro configura personagens fictícios e pasteurizados – modelos contemporâneos calcados em comportamentos coletivos que determinam personalidade, atitudes e modos de falar de muitos. Estrutura-se assim um ego contaminado pela projeção dos diversos modelos da cultura de massa: o vazio interior, preenchido por imagens estereotipadas, permeia a aproximação mágica entre os pares. Significa dizer que, por trás dessa magia, escondem-se pessoas quase sempre inconscientes do modo como se comportam em relação aos próprios movimentos psíquicos, e essa inconsciência, além de distanciá-las de seus processos internos, é amplamente permeável às influências dos apelos coletivos vindos de fora.

O “ficar”, então, se legitima. Homens e mulheres experimentam, por meio da projeção, aquilo que não são e desenvolvem a fobia da entrega, do compromisso e da rejeição, autorizando a ética do provisório – uma lógica que interpreta um conjunto de valores passageiros e tenta estabelecer entre eles alguma ordem que os justifique. O não-envolvimento, efeito dessa projeção, funciona como vacina que os imuniza contra prováveis desencontros, que invariavelmente ocorrem quando as exigências de suas verdadeiras imagens anímicas projetadas não são mais atendidas. Inconscientes da própria essência, muitos optam por relacionamentos compulsivos e superficiais, que alternam a necessidade de amar e abandonar. Em sua não-existência vazia, na qual um pode ser todas as coisas para o outro, vivem como verdadeiros camaleões, que se defendem dos predadores assumindo as características que o meio lhes impõe. E passam a reproduzir infinitamente tal comportamento até que uma pálida e sutil inquietação interna os desarme para um primeiro contato com suas demandas da alma.

Buscar na mitologia o pano de fundo que dá sentido às várias formas de estar no mundo é premissa básica da psicologia arquetípica. Associar histórias pessoais a mitos revela muito de nós, em várias etapas da vida. O mito de Ísis-Osíris, por exemplo, nos oferece informações e possibilidades de reflexão a respeito do “ficar”. Quando Osíris foi assassinado e desmembrado pelo irmão Seth, Ísis saiu à procura dos pedaços desse corpo amado, esquartejado e disperso pelo Egito, juntando todas as partes, exceto o órgão sexual, que foi substituído por um falo de ouro. Osíris renasceu reconstituído em Amenti – o mundo subterrâneo análogo ao Hades grego, o lugar onde está a psique, a morada da alma. E com o falo artesanalmente construído gerou Hórus – a possibilidade de germinar o novo não-efêmero, que facilita a cada ser viver de forma inteira uma relação harmoniosa de amor e cumplicidade.
Isis

Isis (Photo credit: Shelby PDX)

Universo Inconsciente
A Ísis é atribuído o “poder” do renascimento, que psicologicamente significa o reconhecimento de que a possibilidade de discriminação no mundo visível está intimamente relacionada ao contato com os mistérios do universo inconsciente. Esse mito fala de mulheres que buscam nos encontros provisórios partes do Osíris despedaçado em cada homem com quem se relacionam; e de homens acreditando que o grande mistério de sua vida se restringe à potência do falo de ouro, por meio do qual são estabelecidas relações de poder e submissão.
Quanto maior a anestesia provocada por imagens coletivas estereotipadas e superficiais, menor a possibilidade do contato com o mundo interior e com a realidade multifacetada do “outro”. Nos dois últimos versos do “Soneto da fidelidade”, Vinicius de Moraes propõe uma saída criativa para o misterioso prazer dos verdadeiros encontros: “que não seja imortal, posto que é chama, mas seja infinito enquanto dure”.

Mais um pouquinho de conversa…

Olá blogueiros! Como já foi mencionado, meu nome é Daniela Laskani, psicóloga, especializada em psicologia hospitalar, e estou aqui para trazer discussões sobre envelhecimento juntamente com o olhar da psicologia analítica. A minha história com os velhinhos começou há pouco mais de dois anos, quando que por coincidência do destino, fui contratada em um hospital de retaguarda. A maior parte da população deste hospital são idosos com algum tipo de doença crônica degenerativa que estão sendo tratados de forma paliativa ou mesmo em tratamento de reabilitação. O interesse de escrever sobre a fase do envelhecimento surge a partir do olhar de busca para melhor qualidade de vida mesmo quando tudo parece estar chegando ao fim. Onde podemos buscar planos para o futuro quando ele está cada vez mais próximo de nós??? Eis a questão!